E A LITERATURA? É OU NÃO É A CASA DO PAI?
Trata-se de pensar a literatura, no contexto sócio-cultural da atualidade, em suas relações de comunicação com outros produtos culturais e sua situação de poder como discurso privilegiado na hierarquia de valores que a legitimam como tal e de como a literatura movimenta em seu discurso estas questões.
A literatura como um território anônimo e marcado, estranho e familiar, pode ser tomada como referência identitária de um povo? A promiscuidade de seus entrecruzamentos, criticamente elaborados no tecido do seu texto, confere-lhe um lugar de discurso de reflexão sobre sua cultura, seu tempo, seus similares? Qual o lugar da Utopia no texto literário? À força de constituir-se em objeto de desejo de outro sujeito (o leitor) por seu caráter sedutor e instigador, configura o texto literário como objeto de apoio do pensamento reflexivo sobre a existência?
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Dois vetores se articulam no traçado deste texto. Primeiro, o retorno da questão semântica acerca do vocábulo literatura (e as contradições de seus semas) ao lado do seu sentido usual e a gama de conotações culturais, de valor, que se aderem à discussão em torno de sua episteme. Segundo, a sua inserção como produto cultural no circuito comunicativo da atualidade, o que a desloca do lugar já estabelecido pela academia e a põe em confronto com outros produtos culturais. A atitude de deslocamento e rebaixamento hierárquico por força do questionamento do lugar de onde foi olhada e de onde se posicionou como discurso de excelência torna-a vulnerável e, ao mesmo tempo, dá-lhe mais visibilidade frente à pletora de produtos emergentes numa sociedade de consumo.
Ao formular a pergunta E a literatura? É ou não é a casa do Pai?, como mote para esta reflexão, certamente que a quis inserir num contexto fora e dentro do espaço acadêmico. Talvez no lugar entre, em consonância com a tônica dos eventos literários, a bem dizer dos últimos Congressos da ABRALIC, que abriram de modo decisivo para os debates das questões culturais e políticas mais prementes da contemporaneidade, na esteira dos estudos culturais, e em dissonância com o mesmo, ao repor o locus da literatura. Passo a expor algumas dobras que estruturam esta questão.
Primeiro, a pergunta carrega um tom de brincadeira que ironiza a possível perplexidade. Todavia, o jogo verbal e ideológico, que a modula, articula o caráter reflexivo e episódico do questionamento.
Segundo, os denominativos fazem oscilar seus referentes, seja porque, ao dizer literatura,digo de uma indefinição genérica, de natureza histórica, epistemológica, seja porque, ao apelar para a metáfora casa do Pai, faço alusões a uma intrincada rede de produções discursivas que se confrontam com o lugar centralizador, autoral, legitimador, legislador do Pai (com maiúscula). O elemento provocativo internalizado na frase banal arrasta ainda em si um dito popular motivado por uma herança cultural judaico-cristã que professa: “o bom filho volta para casa do pai”, adaptação que seja da paródia bíblica da volta do filho pródigo: “o bom filho à casa do pai retorna”.
Terceiro, o artigo iniciando a pergunta: E é um elemento coesivo descontextualizado, por se tratar de um título, porém remete ao todo da questão para um possível debate ou diálogo preexistente ao texto. Quarto, quinto e mais poderiam se enumerar aqui em desdobramentos, abrindo, democraticamente (leia-se a ironia também, mas não só ela) para o debate, as outras possíveis dobras.
Explicando, na ordem, as questões embutidas, retomo: o porquê da brincadeira, da ironia, da perplexidade, do jogo de palavras e de idéias, e qual é a natureza da reflexão e qual o episódio? Tal qual uma narrativa, afinal, a ficcionalidade da escrita já é assunto estabelecido.
Ao explicar a brincadeira todo o restante se esclarece, na medida possível do que seja um esclarecimento. A própria língua já diz “medida do possível”, o que é igual à relatividade de tudo que postulamos. A contextualização é, pois, assim: Ao se formularem as grandes questões de crítica cultural da contemporaneidade, no bojo dos estudos culturais, o corpo instituído do que se nomeia literatura foi atingido indiretamente, não pelo que representa em si, mas pelo approach, ou pela sacralização, ou pela exclusividade, ou pelos juízos de valor que a diferenciam e a legitimam ideologicamente, em detrimento de outras manifestações culturais ou midiáticas, de expressões minoritárias. Ao se exigir espaço para outras leituras, para análise de outras representações, e resgatá-las do silêncio das academias, apesar de estarem aí gritantes, pulsantes, no repertório mesmo dos ingressos que a cada ano renovam as frentes de aprendizes de uma academia, rebaixou-se, como numa gangorra de dois, na qual o impulso de um para subir leva o outro a baixar, a literatura como objeto a ser estudado.
Por um processo metonímico, ao se conclamar o olhar analítico acadêmico para o que ela ignorava e denegava pela exclusão, alguns incautos consideraram propício, como nas patrulhas ideológicas, trocar de lugar, relegar ao lugar de sombra e esquecimento o texto literário, principalmente os considerados mais complexos. Ou seja, jogar fora, com a água suja do banho, a criança.
Ora, toda novidade, toda reflexão pertinente tem seu momento de euforia, seu movimento de conquista dos espaços necessários à sua efetivação, e isso demanda uma economia de perdas e ganhos. Ao ganhar o espaço de tornar visíveis outras produções culturais, estabeleceram-se parâmetros comparativos, questionaram-se a hierarquia, os valores, a ideologia, os lugares de poder e saber, sacudindo, assim, os postulados de algumas teorias que agiam na tônica da exclusividade de seu objeto de estudo. Bem, agora vejamos o outro lado da moeda. Ao agirem confiados na metonímia, transferiram para o objeto as críticas formuladas aos seus estudos. Daí a arrogância, o desdém dos detentores dos jargões dos novos enfoques, primando pelas análises condenatórias das ideologias subjacentes aos textos literários.
Eis aí o cerne do enredo. Proliferam no âmbito acadêmico os perscrutadores dos textos literários, recolhendo em suas dobras os signos da condenação aos comprometimentos ideológicos de gênero, raça, identidade, nacionalidade. São os leitores astutos versus os leitores ingênuos. O olhar contemporâneo condena historicamente o substrato ideológico que não é mais possível suportar hoje, numa visão crítica do homem de ontem, inserido num contexto no qual suas idéias revolucionárias não eram suficientes para deslocar a formação cultural do cidadão situado em sua própria história. A visada crítica do homem contemporâneo faz fronteira com um ato judicativo, a posteriori, podendo ler as obras do passado em seus comprometimentos decorrentes de uma não consciência ou de uma consciência adormecida das marcas ideológicas (a exemplo, das do colonizador), separadas como dominantes do universo cultural do escritor. São leituras enriquecedoras? Certamente, algumas, sim. Para tanto, o texto está aí e serão todas bem-vindas, todas, cada uma com sua história se inscreverá na história daquele texto. Porém será apenas mais uma leitura, contextualizada, datada, marcada e, triste destino, mais efêmero que o texto avaliado. Esse seguirá provocando leitores, consolando corações, iludindo crianças, confortando a solidão dos anciãos.
Ao lado dessa revisão, acentuaram-se os estudos de outros produtos culturais, olhando-se com complacência para os “conservadores” que continuam a ensinar com base nos textos literários. Daí a brincadeira. O que acontece nas esferas dos debates políticos e culturais repercute nas esferas dos iniciados, com conotações redutoras. Resta esclarecer que não se está criticando o escopo dos estudos culturais, necessários a uma sociedade multiforme, de diversidade de representações, de questionamento acerca das nacionalidades atravessadas por matizes culturais diferenciadas, nos quais de repente o outro somos nós mesmos, num mundo da globalização, da emersão dos simulacros.
Os estudos culturais surgiram como resposta às necessidades prementes da nova conjuntura pós-moderna, dando voz às expressões minoritárias e de grupo, deslocando do foco de interesse a primazia do subjetivo, tônica da modernidade. O que discutimos aqui não é o lugar já estabelecido e de supremacia, digo de poder intelectual, dos estudos culturais. Falo das ressonâncias, da diluição operacionalizada na prática dos epígonos. Falo da redução do texto literário, mediante um olhar apressado, a uma espécie de locus marcado ideologicamente, socialmente, culturalmente, ignorando seu potencial de aventura, seu poder de romper fronteiras como atividade transcultural, transnacional, atravessado por linhas específicas de uma rede universal da escrita literária. E, primacialmente, o potencial criativo da Utopia que subjaz em todo texto literário.
Desse modo, estabelece-se, paradoxalmente, como território anônimo e marcado, estranho e familiar, que, se tem raízes na cultura e costumes de um povo, naquilo que ele tem de mais íntimo que é a língua - mesmo não sendo uniforme - mesmo nem sempre podendo ser referência identitária de um povo, a inflexão de sua produção discursiva, seja ela lírica ou narrativa, flexiona com outros textos de outras línguas, de outros tempos, num entrecruzamento sofisticado e simples, aprendido e intuído, fruto de leituras e afinidades, de influências e choques, de continuidades e rupturas.
O universo poético, como o referia Valéry, e o universo ficcional abrangem uma feitura e um imaginário, uma circulação e um diálogo permanente com as formas de dizer, de representar, e isso significa uma rede de intercomunicação nos níveis vertical e horizontal, lingüístico, técnico etc. Se os textos de Borges incorporaram o ensaio ao ficcional, além do já tradicional histórico, e misturaram as fronteiras, assim como outros modularam com as memórias, com o epistolar, se Guimarães Rosa encenou na linguagem a diversidade de falares, de empréstimos, estrangeirismos, construindo um tenso tecido literário e também uma densa construção cultural, tanto política quanto social, ética, de grupo e também do ser, em sua condição de vivente, agente, falante, pensante, e que sobretudo sente, como nas figuras míticas e emblemáticas de Riobaldo e Diadorim, assim o texto mais contemporâneo dialoga com a mídia, com os recursos informáticos, gerando também o hipertexto.
Agora, nos perguntamos: qual o lugar da literatura no contexto social, cultural, político no qual está inserida? A que ordem pertence seu discurso e de que literatura falamos? Estamos assim na ordenação explicativa do item dois, tratando da esfera interpretativa dos denominativos. Quando digo literatura, digo tudo que entendemos no Ocidente e que tomamos como texto literário, desde os gregos, apesar de o uso do termo literário nesse sentido ser uma construção da modernidade. Falo de qualquer texto considerado literário, e que tomamos como objeto de estudo, e falo também, mais especificamente, da literatura contemporânea. Falo subjetivamente de meu objeto de estudo, de meu gosto pessoal, de minhas escolhas, falo do meu direito ao meu poder interpretativo, falo do meu objeto de desejo, consentâneo com o meu universo cultural, com inserções do meu ser no mundo, com o que me diz, o que me responde ou, melhor dizendo, me pergunta. Logicamente que outros produtos culturais de grupos às vezes desconhecidos e fechados, étnicos, ou de gênero, podem encontrar ressonância no meu ser, deles me apropriando para algumas considerações. Todavia aqui, agora, estou a falar de literatura.
De algum modo, a literatura lê a cultura de um povo, tritura-a, amalgama-a em seu tecido textual de modo a poder simbolizar em rico aparato de linguagem uma realidade que se vive, mas não se sabe dizer, dialoga com a sociedade de consumo, com o habitat do homem moderno ou pós-moderno, de modo criativo, crítico, decifrando e codificando os anseios produtivos e existenciais de cada ser humano e de nenhum, sem abstrair sua condição de raça, cor, gênero ou desejos pessoais, mas sem excluí-los por sua inserção em grupos de sua condição humana, inalienável, de ontem, de hoje, de amanhã, de um aqui como lugar existencial que é espaço que ocupa cada um e todos.
Que literatura, me perguntariam, e eu não poderia ingenuamente citar textos, usar o critério de permanência porque cairia apenas no que se denomina uma instituição, mas posso afirmar sem receio que é aquela que corre o risco, que se aventura nas zonas mais profícuas da linguagem, nas zonas mais obscuras do ser humano em sua condição de vivente, seja qual for o papel que esteja operando. Lá, como muito bem nos relata Todorov no livro Em face do extremo, há várias facetas, há várias atuações. Posso dizer que nesse risco há toda uma intensidade ética de construção de uma forma, há a sinceridade de uma escrita, na qual o logro maior é o próprio ato de escrever. Depois, há seu caráter autocrítico, seu diálogo intenso com o mundo. Se há um pendor a sacralizar, há também um gesto dessacralizador. Se a aura foi contestada, o foi primeiramente e com muita antecedência no âmbito da própria realização poética, literária: Baudelaire, Lautréamont e outros! Há papéis a serem desempenhados, e eles são efetivados, por isso a história da literatura é rica, paradoxal e indeslocável.
As questões mais prementes dos debates culturais da atualidade já estão lá, no tecido literário, entrelaçadas, pontuadas. Há muito que a literatura dialoga com outras expressões artísticas, com cinema, música, espaços, manifestações, minorias, política, filosofias, teorias, assertivas, negativas, línguas, dialetos, fronteiras, unidades, legalidade, nacionalidades. Promíscua, por natureza, não há recusa, há graus de realização, há complexidade de feitura, há horizontes diferenciados de percepção. Sem respostas. Uma aporia.
A literatura, ao ser tomada em suas realizações, ocupa lugares diferenciados, politicamente, culturalmente, academicamente. Pelo seu caráter representativo e imagético foi considerada, nos primórdios da teorização, mesmo sendo em feitura épica e dramática voltada para uma coletividade, foi considerada subversiva, perigosa, enganosa, persuasiva e deformadora do real, falsa cópia, simulacro teimoso que disputa com a boa cópia seu lugar na cena da representação do mundo. Se estou a falar de Platão, não o estou ironizando. Em minha ótica, está certo A sua acuidade bem viu o aspecto indomável, fugidio, fortuito e gratuito da arte poética, arte sim, porque molda na língua, em imagens, em construção de uma forma, sua responsabilidade ética, molda, repito, um objeto, um suplemento a ser acrescido à convivência dos homens.
Se de um lugar subversivo, de liberdade, a literatura passa a ser olhada como lugar do poder, do privilégio, do valor estabelecido hierarquicamente, da lei – a casa do Pai, lugar no qual deve ser contestada – lembro que esses textos como produções discursivas adquirem estatuto próprio, cortam o elo infantil com o autor, o Pai, e respondem por si, por sua sobrevivência, pela sua dócil (aparentemente) submissão ao leitor. Este é seu interlocutor presente, seu dono real e perversamente seu escravo, prisioneiro de sua teia interpretativa, dono desse poder interpretativo, usurpador do sujeito criador, que se ausenta emudecido, fazendo o texto falar por ele.
O diálogo do autor com seu texto é um diálogo intenso, de feitura e leitura, de construção, de distanciamento e aproximação, de busca, de desencontros e encontros, de intensa libido e esgotamento, de profundo gozo, mas que perde seu objeto logo que o conclui e doa ao leitor uma incompletude que se arvora a tê-lo, não o tendo nunca. Essa a vingança maligna da morte do autor. Esse o malogro da doação, esse simulacro pervertido do real. Essa a clave para se ler Platão e concordar com ele. Aristóteles mais na frente fez uma defesa estéril da literatura, mas que convenceu e hoje estamos aqui a falar do mesmo objeto, o mesmo e outro, sempre incômodo, mal instalado, que ocupa um lugar incerto.
Desde os primórdios dessa nossa herança cultural (gostemos ou não, ela ressoa até hoje em nossa lógica socrática), há um desconforto quanto à inserção da literatura no social. Lógico que se pode argumentar que há textos muito bem instalados, em namoro profícuo com a tônica dominante de padrão ideológico definido. Digo, quanto a isso, que o tamanho do diálogo de um texto com seu contexto, com sua inserção no social, é o tamanho da continuidade desse diálogo. Não cito exemplos para não mexer no problemático assunto do cânone. Não pensei também em puxar tantos fios de reflexão.
Bem, parece-me que, relendo este texto, estou falando de uma literatura virtual.
Todavia, estou a falar de uma literatura de meu repertório, a que conheço. Aliás, posso tentar uma definição, dizendo que literatura é uma ponte entre produção e leitura. Assim, como não há mestre sem discípulo, ou em linguagem mais circunstancial, não há professor sem aluno, não há literatura sem leitor. Dentro desse raciocínio, posso dar um conselho de ordem prática: quer ser literatura, forme seus leitores: compre-os, venda-os, persuada-os, instigue-os, alicie-os. Cada texto tem o leitor que merece e vice-versa. Isso digo sem conotação de valor, sem ordem crítica implícita ou explícita. Uma constatação. Além do bem e do mal.
Penso que é hora de voltar para o meu esquema inicial, após tão longa pontuação a respeito do que é literatura, sem mesmo dizê-lo. Essa afirmação não é modéstia porque também não conheço quem já conseguiu dizê-lo, além do pueril. Voltemos à casa do Pai. Lá nos espera a literatura ou não. Afinal, o que é esse simbolismo da casa do Pai? É um símbolo doido, proteico, ele puxa para dois lados, é só consultar nossos referenciais. Não podemos ignorar nossos referenciais, fazer deles tábula rasa por uma impostura intelectual. Neles há respostas e deslocamentos, há preconceitos e questionamentos, neles há uma parte de nosso ser-estar no mundo.
Então, adentremos à casa do Pai, com cuidado, pois somos feitos de matéria delicada e nunca viajamos indenes. Por favor, vocês não estão em território alheio, apesar de que certamente e propositadamente não terão citações, nem referências bibliográficas. Mas estamos, sim, em busca do referencial cultural, epistemológico, pessoal, subjetivo, coletivo do que é a casa do Pai. Ultrapassado o pórtico, podemos sentir o aconchego de um lar ou o vazio de um teto. Aqui certamente não, mas ali na esquina essa viagem nos deixaria nos semáforos, e a casa do Pai é um céu com ou sem estrelas, brilhando nos olhos do crack, os filhos órfãos de um Pai que há 500 anos a grande parcela de um povo procura.
Mas voltemos para o teto protetor em que estávamos, aquele não é o nosso caso, nós aqui, na academia, falando de literatura, que também fala deles. Ocupamos assim o espaço central da casa, mesa, provimento, reunião (de imediato, comparecem Drummond, Mário de Andrade, Kafka e tantos outros). Ali tem uma escrita, uma cultura, um comando, uma lei, um poder estabelecido que nos impõe uma ordem, ali nos inscrevemos como habitantes e podemos sentir o lugar também de nosso desejo, de nossa raiva, de nosso protesto, ali nasce a submissão e a contestação, ali nasce a mudez e a articulação, ali, lugar de origem, de desterritorialização, a solidão, a falta, a incompletude, o sedentarismo e a viagem, ali lugar de chegada e de partida.
Esse espaço vazio e pleno, a casa do Pai, lugar utópico, sem teto, sem sala, sem cantos íntimos, lugar onde se está ou se ausenta a cada gesto, a cada inflexão do ser. Nesse lugar, a escrita literária se constitui como texto, fonte de produção ou estéril ponto zero. Apesar de que o zero nunca será ponto estéril, porque é a plenitude do nada, a perfeição da não-falta porque ainda nada não começou, é mais potencial do vir a ser. (Dispenso, pois, a metáfora, por inconsistente filosoficamente). Essa viagem à casa do Pai, posso ofertar a todos em continuada busca de signos.
Retomo mais uma vez o questionamento inicial, porque o tom prosaico, irônico, provocador espera por considerações. Afinal, a literatura é ou não é a casa do Pai? Podemos escolher duas representações simbólicas, ambas ou cada uma de per si. A literatura é esse lugar de poder instituído, legitimado, detentor do saber que, como instituição, tem sua fragilidade, suas rachaduras por onde infiltra seu antídoto, e/ou a literatura é o lugar do meu desejo, que como todo desejo é falho, ausente, mas é produtivo, de alucinações que seja, de construções, de impulsos, de atos e abalos? Perguntando de outro modo, é conservadora ou revolucionária? Parece que a aporia se instalou mais uma vez. Porque, como já deu para perceber, essas polaridades não o são de fato. Inventei-as e as desfaço. Uma depende da outra como as duas faces de Jano.
Mesmo diante de tantas palavras, a minha perplexidade continua. Falta ainda rever o item três. Lá está a questão do diálogo implícito na pergunta-título, por conta do elemento de coesão E, que busca a anterioridade de sua inclusão É o modo desta reflexão se inserir num debate que está ou esteve em curso emCongressos, periódicos, é o efeito, retardatário que o seja, de uma bomba lançada nos estudos literários, e os estilhaços que sobraram, em seu objeto de estudo, a literatura. Trata-se também de um diálogo comigo mesma, com a própria literatura e, ainda, de um diálogo interpessoal. Não se trata de uma defesa da literatura, seja ela qual for, e sim, de algumas inflexões decorrentes de tantas premissas estabelecida em seu entorno: as verdades atuais que se afirmam contestando as antigas verdades. Ademais, como toda instituição, ela tem seus comprometimentos e os agentes envolvidos com sua fatura os têm: de modo ambíguo, conflitante, ou mesmo como material de elaboração criativa. Eu não defendo a literatura, porque a de que eu gosto, eu julgo perigosa, pois toca zona imperceptível de meu ser. Por isso eu a seguro com uma mão e a denego com a outra.
Tendo cumprido a explicação do título, eis que chego ao término dessa escrita. Ela própria sendo apenas essas reflexões.
Há, ainda, meu depoimento como leitora. O ato de ler, o ócio de ler ficção, poesia, é contrário a uma economia moderna, é passível de ser condenado como hábito oriundo do Iluminismo, e é provável que o seja, mas que doce hábito, eu culturalmente arrasto esses grilhões. Todos somos escravos de nossa história, prisioneiros de uma clausura histórica, geográfica que nos remete para o nosso próprio arremedo e, se a literatura nos espelha, nos fala, nos toca, nos conduz a algum nível de reflexão existencial, ou nos entedia, ou nos torna nômades, apesar de nossa cultura sedentária, algum poder de sedução está lá, e não quero só a realidade do não-encantamento, quero também a poesia do efêmero, a poesia da fantasia e do imaginário porque lá reside a força de uma realidade humana, da minha condição humana que pode fazer de mim um sujeito um pouco mais consciente da minha própria trajetória.